Inquietudes

08/05/2006

A paz que eu não quero...



Senhor, não é fácil viver perto de ti...

   A tua palavra, as tuas chamadas provocam sempre no coração da gente uma terrível angústia, um desejo de resposta e o medo de responder.
   Tu possuis um vocabulário particular, uma linguagem especial. Não conheces a palavra "basta", mas somente a palavra "mais":
       mais conversão...
       mais amor...
       mais disponibilidade...
       mais perdão...
       mais perfeição... 
       mais entrega...
até que o homem mergulhe em ti para ser semelhante a ti...
   No teu calendário só existem dias de amor.
   No nosso, há dias em que a gente prefereria não fitar os teus olhos, não tocas as suas mãos, não ouvir tuas palavras...
   Sou louco... perdoa-me se te falo com franqueza. Há dias e horas em que sinto a vontade de te dizer:
            
Ensina-me a fugir para sempre de ti para viver tranquilo...
                Mas, por favor,
                não escute esta prece.
                                              
Amém!!
(Adaptado de uma oração de Frei Patrício Sciadini,ocd)

    
Desejo fazer tudo... porém, pouco ou nada faço diante das minhas situações... e o pior: por muitas vezes penso que já é o bastante. Sempre me esqueço das palavras de St. Agostinho: " se disseres basta, perecestes". Mas pode ser também que ele, de acordo com a mentalidade de sua época, estava tão preocupado em vivenciar e ser habitado ao máximo pela graça divina que se esqueceu de considerar que ele também era um ser humano.
     Não quero com isso justificar o comodismo, justamente o contrário...
Hoje tenho a plena consciência de que sou humano demais ( www.humano.zip.net ) e não preciso cobrar-me tanto pelas minhas limitações. Essa consciência me traz a inquietação necessária para colocar-me em movimento...
           não estou acomodado.......................................só te buscando
           e a busca me leva ao desejo de resposta..........e há o medo de responder
           e esse medo não me tira a paz..........................pois essa paz eu não tenho, e nem ao menos quero ter...
    Se desejo viver tranquilo, devo rasgar e queimar 98% do Evangelho... dessa paz eu não gosto mesmo... não são os violentos que conquistam o Reino?!
    Que a Sua paz seja como o vento, com sua voz vinda de longe e passando com muita pressa, acariciou-me o rosto e sussurrou: O Senhor corre nas minhas asas, abraça e acaricia os que encontra, mas não se deixa abraçar.............

”Onde é que te escondeste, amado, e me deixastes com gemido? Como cervo fugiste havendo-me ferido... Saí por ti clamando e eras já ido...”

     Que eu busque sempre na alegria da incerteza...
     Não me deixes nunca sentar à beira do caminho...


          Senhor... não me deixes em paz... nem agora e nem nunca...


Escrito por Conrado às 20h40
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11/04/2006

A Fonte...

Janela do Céu - Ibitipoca

"A floresta ondulante desce
No ritmo dos rios da montanha....
Se você quer descobrir a fonte,
Você tem que subir, contra a corrente,
Atravesse, procure, não desista,
Você sabe que tem que estar aqui em algum lugar.
Onde está você, fonte? Onde está você, fonte?"
(Karol Wojtyla)

            O homem é capaz de banalizar até mesmo a presença de Deus na vida... Em vez de cantar a poesia, ele se perde nas frases mal arrumadas... O coração da gente é tão pequeno para enxergar as maravilhas!

            Hoje gostaria que as estrelas cantassem comigo a beleza da fonte... A fonte que não sou, mas que sei existir. Estou à busca da fonte, assim como o rio está à busca do mar... O mar está dentro de mim e, contudo, não deixo de penetrar sempre mais para as vizinhas do coração.

            Minha fonte está no deserto e no mar. Tenho sede dela, mas também me alegro com o sabor da água viva. Minha fonte é do céu e da terra. Até as estrelas vêm beber na fonte que é de todos. Há quem dance nela sem acreditar que ela existe...

            Minha fonte é o começo de tudo. Eu amo a fonte com o amor que esqueço de dar ou que a vida cega faz guardar para mim. Não me imaginem sem a minha fonte... Sem ela não sei nada do que sou, mas com ela já consigo querer bem até aos que não desejam ser amados.

            Vou parar o meu canto, mas, quando a noite cair e esconder a luz, Deus acenderá as estrelas... e eles formarão uma orquestra para que a fonte não deixe de ser louvada...

 


Escrito por Conrado às 15h10
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12/02/2006

Coração meu, fique quieto,
tome cuidado,
Você sentiu passar uma borboleta,
seguiu-a, correu,
Você galopou, vai apanha-la
e se põe a pensar,
A sonhar,
A construir,
A edificar...
Tome cuidado quando
não conseguir prende-la,
Quando lhe fugir das mãos
e você sofrer por isso...
Não,
olhe-a, observa-a,
fique imóvel,
não se mexa
ela vai voltar.
Ei-la, vê você?
aproxima-se,
atenção, não se mexa,
mais perto, mais perto,
é amarela e vermelha, com antenas muito grandes
círculos azuis sobre as asas.
Olhe, ei-la,
gira em torno de sua cabeça,
desce um pouco,
exponha sua mão ao sol
ela pousa em cima
não feche sua mão, por favor,
não a feche...
 
   Estou aprendendo a viver... aprendendo a usar o tempo em meu favor... as coisas acontecem em seu devido momento ... o que adianta correr se existe o tempo certo da chegada?... tudo isso é fruto da minha ânsia em conquistar aquilo que tenho "sonhado, construído, edificado"... o que busco é muito mais sublime, tão sublime que não cabe em uma mera partida, numa despedida eufórica e ao mesmo tempo afoita.
   Quando corremos a nossa visão fica trêmula, quando paramos podemos enxergar mais nitidamente a beleza à nossa volta... parados o nosso campo de visão é limitado... correndo, podemos enxergar mais além do que antes conseguíamos ver, ainda que um pouco mais cansados... inquietude ou quietude? o que fazer?
   As vezes é necessário trocar a minha inquietude pela quietude... muito mais vezes o contrário...porém, é na quietude que saberei contemplar o que é mais belo na minha vida...Saberei ver e amar sem aprisionar...
   Saberei viver na perfeita liberdade.........


Escrito por Conrado às 18h25
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04/02/2006

Sonho com Virgínia

ondas douradas

 

            Em vez de pensar em mim, Virgínia, naquilo que não sei ver do amor de Deus, pensei em você. Estamos na beira do mar... todo mundo diz que a água está boa, que as ondas estão carinhosas no balanceio da vida. Nós, porém, ficamos na praia.

            Só sabe o que é a onda mansa quem se deixa levar por ela. Ver-se envolto pela água não se faz com filosofias. O mar está aí...ou será que nós desconfiamos da existência do mar?

            - Há quem precise do mar, mas eu estou bem sem ele...dizemos nós. Dentro de nós, contudo, bate a saudade das ondas quebrando na areia.

            A fome do mar é a fome da fonte que sabemos não ser. Não é a areia quente, apressando os nossos pés, que vai dizer o que é o mar. A praia existe porque existe o mar. Só sabe o que é a onda quem se deixa carregar por ela. E nós continuamos a questionar-nos  se ela é verdadeira.

            Virgínia, envelhecer na praia não me seduz. Ou ir embora ou lançar-me no mar verde, eis as duas opções que percebi. Decidi-me pela segunda. E você?

            (No meio da alegria da descoberta, percebi Virgínia plantada firme, ainda, ao lado do castelo de areia que ela e eu havíamos erguido para o sol abençoar.)

            - Virgínia! – gritava eu. Ela, porém, olhava o outro lado da vida. Quando tornei para bem junto dela, li nos seus olhos vivos e curiosos que ela não me compreendera.

            - Por que ir ao mar se a praia me satisfaz?

- Mas o mar é melhor! Olhando de lá, os homens são mais homens, a praia mais praia, a terra mais terra...

- Como é que você sabe tal coisa?

- Virgínia, eu estive lá. Eu vi... Eu amei... Até você era mais linda, vista do mar...

De então em diante Virgínia e eu estamos no meio do mar de Deus. Ninguém convence ninguém. O mar é um risco. Deus arriscou amar o homem com fidelidade eterna. Seria tão bom o homem correr o risco de amar de modo semelhante...

 

 Virgínia representa todos os meus amigos... ainda sonho que em uma dia todos nós estaremos cantando as Suas maravilhas... se o homem ao menos soubesse o que é a vida... seria tudo tão diferente... se soubesse como é gostosa a aventura de se deixar levar pelas ondas ... por que não se lançar no "mar"?

 

 


Escrito por Conrado às 17h27
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